Dom Mbilingi chamou a atenção para a necessidade de uma transformação concreta na forma como as instituições funcionam, defendendo que a burocracia deve ser um instrumento de organização e não um obstáculo ao desenvolvimento.

Numa celebração marcada por forte simbolismo religioso e apelos à consciência social, o Arcebispo Metropolita da Arquidiocese do Lubango, Dom Gabriel Mbilingi, presidiu à Solene Vigília Pascal na Paróquia de São José, Sé Catedral do Lubango, reunindo centenas de fiéis numa noite de reflexão, fé e questionamento sobre os desafios que o país enfrenta.

 Durante a homilia, o prelado católico fez uma intervenção contundente, na qual denunciou a existência de um sistema que, segundo afirmou, tem dificultado a concretização de mudanças profundas em Angola. Dom Mbilingi destacou que um dos principais entraves ao desenvolvimento nacional reside numa “burocracia estéril”, que, em vez de servir o bem comum, acaba por bloquear iniciativas, retardar soluções e desmotivar cidadãos e instituições comprometidas com o progresso.

Falando num tom firme, mas pastoral, o arcebispo sublinhou que a ressurreição de Cristo, celebrada na Vigília Pascal, deve ser entendida não apenas como um evento religioso, mas também como um convite à renovação das estruturas sociais, políticas e económicas. “Não podemos celebrar a vida nova e continuar presos a práticas que sufocam a esperança do povo”, afirmou, arrancando aplausos discretos dos presentes.

Dom Mbilingi chamou a atenção para a necessidade de uma transformação concreta na forma como as instituições funcionam, defendendo que a burocracia deve ser um instrumento de organização e não um obstáculo ao desenvolvimento. Segundo ele, quando os processos administrativos se tornam excessivamente complexos e improdutivos, criam-se barreiras invisíveis que impedem o crescimento e alimentam a desigualdade.

O líder religioso também alertou para os efeitos sociais dessa realidade, destacando que os mais pobres são os principais prejudicados por sistemas ineficientes. “Quando a burocracia se torna estéril, quem sofre é o cidadão comum, que vê seus direitos adiados e suas necessidades ignoradas”, disse.

A mensagem do arcebispo surge num contexto em que diversos sectores da sociedade angolana têm manifestado preocupações com a morosidade dos serviços públicos, a falta de eficácia administrativa e a necessidade de reformas estruturais. Embora não tenha feito referências diretas a instituições específicas, a sua intervenção foi interpretada por muitos fiéis como um apelo claro à responsabilidade dos gestores públicos e líderes políticos.

A Vigília Pascal, uma das celebrações mais importantes do calendário cristão, foi assim marcada não apenas pela dimensão espiritual, mas também por um forte conteúdo social e crítico. Para muitos dos presentes, as palavras de Dom Mbilingi representaram um momento de coragem e lucidez, reforçando o papel da Igreja como voz ativa na promoção da justiça, da ética e da dignidade humana.

No final da celebração, os fiéis saíram da catedral com um sentimento misto de esperança e inquietação, refletindo sobre os desafios apontados e o papel de cada cidadão na construção de uma Angola mais justa e funcional. A mensagem deixada pelo arcebispo permanece como um alerta: sem mudanças reais nas estruturas que governam o país, a promessa de renovação poderá continuar adiada.

Assim, a celebração da Páscoa no Lubango transcendeu o âmbito religioso, transformando-se num espaço de reflexão nacional sobre a urgência de reformas e o compromisso coletivo com um futuro melhor.