A ignorância política não é apenas uma falha individual de compreensão da realidade; ela transforma-se, muitas vezes, num perigo colectivo. Quando revestida de arrogância intelectual, torna-se ainda mais nociva. Muitos afirmam ter estudado filosofia, história, sociologia ou direito, mas demonstram uma incapacidade gritante de interpretar os sinais dos tempos. Falta-lhes humildade histórica, sensibilidade social e responsabilidade ética. Em vez disso, optam pelo banditismo político, legitimado pela consagração de leis inconstitucionais, manipuladas para perpetuar privilégios e silenciar a vontade popular.

Angola vive um momento decisivo da sua história. O país encontra-se num impasse político, social e moral que exige coragem, lucidez e sentido de Estado. É chegada a hora de João Lourenço (JLO) e Adalberto Costa Júnior (ACJ) se encontrarem, não como adversários irreconciliáveis, mas como líderes conscientes da gravidade do momento nacional, para negociar um Pacto de Transição Política Responsável para Angola. Esta não é uma concessão pessoal nem uma capitulação política; é uma exigência da realidade concreta do país.

A actual conjuntura não é favorável ao MPLA, nem aos seus estrategas de meia tigela, presos a fórmulas ultrapassadas e desprovidas de visão histórica. Persistem nas chamadas “maratonas” de cerveja barata como método de mobilização política, apostam em bajuladores profissionais como sustentáculo do regime e continuam a investir em estratégias de divisão, infiltração e desgaste das forças democráticas. Como bem observa o sociólogo Osvaldo Tchingombe, a instrumentalização de projectos políticos como o PRA-JA, infiltrado por órgãos repressivos do Estado, visa fragmentar a oposição e enfraquecer qualquer alternativa real de mudança.

É particularmente doloroso constatar que muitos desses bajuladores provêm do Huambo, enquanto os umbundus continuam, injustamente, a ser tratados como traidores da pátria. Essa lógica de estigmatização étnica e regional não apenas fere a coesão nacional, como perpetua um modelo de governação baseado na desconfiança, no medo e na exclusão. Uma nação não se constrói demonizando partes do seu próprio povo.

Angola já sofreu demasiado. Décadas de guerra, promessas adiadas, transições inacabadas e reformas cosméticas deixaram marcas profundas. Hoje, o país enfrenta problemas estruturais graves: um sistema de educação falido, um sistema de saúde incapaz de responder às necessidades básicas da população, níveis alarmantes de pobreza, desemprego massivo, salários indignos e cidadãos obrigados a alimentar-se a partir de contentores de lixo. Esta realidade não é propaganda da oposição; é o quotidiano vivido pela maioria dos angolanos.

Chega de estratégias rastejantes. Chega de jogos de bastidores que apenas prolongam o sofrimento colectivo.

Angola não precisa de mais manobras políticas, mas de um compromisso sério com o futuro. Um Pacto de Transição Política Responsável deve assentar em princípios claros: respeito pela Constituição, reformas eleitorais credíveis, separação efectiva de poderes, liberdade de imprensa, justiça independente e inclusão de todas as forças vivas da nação.

O angolano — seja ele membro da sociedade civil, militante partidário, cidadão residente no país ou na diáspora — deve erguer-se. É tempo de abandonar o medo e a resignação. É tempo de exigir, de forma pacífica, consciente e determinada, um novo contrato político que permita o reencontro nacional. Um pacto que conduza à unidade verdadeira, à paz duradoura, à reconciliação sincera e à liberdade plena da Grande Família Angolana.

O grande mal da Humanidade é de regimes democráticos cooperarem com um regime ditatorial e autocrático e nada fazer. A história não absolverá os que, tendo conhecimento e poder, escolheram a ignorância política como método de alianças e governação. Mas também não perdoará o silêncio dos que viram o país afundar-se e nada fizer. O futuro começa com a coragem de dizer basta e de exigir responsabilidade.

Obrigado!