UNITA e PRA-JA denunciam falta de salas de aula, professores, carteiras e alegadas irregularidades no acesso às vagas escolares. Partidos questionam as prioridades do Governo Provincial, enquanto as autoridades garantem estar empenhadas na melhoria da qualidade do ensino.
A situação do sector da Educação na província do Cuanza-Norte está a gerar críticas por parte dos partidos na oposição, que acusam o Executivo de não estar a responder adequadamente às necessidades das comunidades, numa altura em que o ano lectivo 2026/2027 já se encontra em curso.
Dois meses depois do arranque oficial das actividades lectivas, a UNITA considera que o sector continua marcado pela insuficiência de salas de aula, falta de professores, escolas inacabadas, carência de material didáctico e profundas desigualdades no acesso ao ensino entre os municípios e as comunidades mais afastadas.
Durante uma conferência de imprensa, Ernesto Tomás, secretário provincial da UNITA no Cuanza-Norte, chamou particular atenção para a situação do bairro Kote, no município de Terreiro, onde, segundo as constatações apresentadas pelo partido, crianças vivem a cerca de 11 quilómetros da sede municipal sem acesso a uma escola, água potável, energia eléctrica ou posto médico.
Para o responsável político, a realidade demonstra o contraste entre os direitos constitucionalmente consagrados e as dificuldades enfrentadas diariamente pelas populações.
A UNITA denunciou igualmente a sobrecarga dos professores nas zonas periféricas, onde a insuficiência de profissionais obriga alguns docentes a assegurar até 24 tempos lectivos semanais, trabalhando em dois períodos e, muitas vezes, em condições consideradas degradantes.
O partido voltou a apontar a existência de escolas construídas no âmbito do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) que continuam inacabadas, nomeadamente nos bairros Kibuangoma, Karine de Cima, junto ao Instituto Politécnico Privado Pitágoras, e na zona de acesso à futura urbanização de Ndalatando.
A formação política manifestou ainda preocupação com denúncias de alegadas cobranças indevidas, favorecimentos e realização de rifas para a obtenção de vagas escolares, defendendo maior transparência e fiscalização dos processos de matrícula.
Na sua abordagem política, a UNITA acusa o Executivo de inverter as prioridades, considerando que, enquanto várias comunidades continuam privadas de escolas, professores, água potável e outras condições básicas, os recursos públicos não devem ser orientados para uma lógica de celebrações e propaganda.
Como alternativa, o partido defende a construção de mais escolas, conclusão das infra-estruturas abandonadas, contratação e distribuição equilibrada de professores, melhoria das condições de aprendizagem, transparência nas matrículas e descentralização do ensino superior, incluindo a criação de estruturas de formação em áreas estratégicas, como as Ciências da Saúde.
A mensagem central da conferência de imprensa, proferida por Ernesto Tomás, foi particularmente contundente: «11 quilómetros não podem separar uma criança do seu futuro. Um professor não pode ser sobrecarregado até à exaustão. E o lugar onde uma criança nasce não pode determinar até onde poderá chegar».
A UNITA defende que a educação deve ser encarada como um investimento no futuro e resume a sua posição numa mensagem política: «Menos propaganda. Mais escolas. Mais professores. Mais oportunidades».
ESCOLAS SEM CONDIÇÕES CONTRASTAM COM DISCURSOS OFICIAIS

Apesar de os discursos oficiais dos responsáveis do sector apontarem para a criação de condições para o presente ano lectivo, algumas realidades denunciadas no terreno levantam dúvidas sobre a qualidade do ensino oferecido às crianças.
Um dos exemplos apresentados pela oposição é a escola primária do bairro Camgonjo, na comuna do Máua, município de Ambaca, onde as condições de funcionamento foram questionadas por Ernesto Tomás.
«Mas, em pleno século XXI, ainda é possível existir escolas dessa natureza? Será que é mesmo falta de vontade?», questionou o dirigente da UNITA.
Por sua vez, Fernando Alberto, secretário municipal da UNITA em Ambaca, denunciou, em declarações ao Jornal Hora H, que, dois meses depois do arranque do ano lectivo, só recentemente começaram os trabalhos de remodelação do tecto da escola do I Ciclo, na sede comunal do Máua.
«Assim vai o país», ironizou.
O responsável questionou igualmente a percentagem do Orçamento Geral do Estado de 2026 destinada ao sector da Educação, apontando para uma alegada alocação de apenas 6,9%.
«Que qualidade de ensino se pode alcançar com esta fatia tão mísera?», questionou Fernando Alberto.
Segundo o político, no presente ano lectivo 2026/2027, milhares de crianças continuam fora do sistema de ensino no município de Ambaca, situação que considera preocupante e reveladora das dificuldades que persistem no sector.
RIFAS PARA CONSEGUIR VAGAS NO PRÉ-ESCOLAR
As denúncias estendem-se também ao processo de acesso às vagas escolares.
Ouvida pelo Jornal Hora H, Kássia José manifestou indignação com a alegada prática de realização de rifas para garantir uma vaga no ensino pré-escolar.
«Agora virou moda fazer rifa para estudar no pré-escolar», denunciou.
A situação, caso seja confirmada, levanta questões sobre os critérios de admissão das crianças nas instituições públicas de ensino e a transparência dos procedimentos de matrícula.
PRA-JA DENUNCIA FALTA DE CARTEIRAS NO COLÉGIO CÔNEGO MANUEL DAS NEVES
As críticas ao sector da Educação no Cuanza-Norte não se limitam à UNITA. O secretário provincial do PRA-JA Servir Angola, João Quipipa Dias, voltou a denunciar a falta de carteiras na antiga Escola n.º 2211, actualmente denominada Escola Primária Cônego Manuel das Neves, no município de Cazengo.
Segundo o dirigente, os alunos continuam a frequentar as aulas sem condições adequadas de acomodação, enquanto recursos públicos são utilizados em obras de embelezamento urbano.
«Há dinheiro para pintar as casas do casco urbano de Ndalatando, mas não há para comprar carteiras», denunciou.
João Quipipa Dias questiona como é possível falar em desenvolvimento quando crianças não dispõem sequer de carteiras para se sentarem e aprenderem com dignidade.
«O futuro de Angola não se constrói com tinta nas paredes, mas com investimento sério na educação», advertiu o responsável político.
Para o secretário provincial do PRA-JA, o país dispõe de recursos naturais e condições para garantir melhores serviços públicos, faltando, na sua perspectiva, uma governação que coloque os cidadãos, sobretudo as crianças, no centro das prioridades.
«Educar é investir no futuro. Negligenciar a educação é hipotecar esse futuro», concluiu.
GOVERNO ABRIU OFICIALMENTE O ANO LECTIVO NO CUANZA-NORTE
Em contraste com as denúncias apresentadas pelos partidos na oposição, o Governo Provincial do Cuanza-Norte realizou a cerimónia oficial de abertura do ano lectivo 2026/2027, sob o lema «50 Anos: a Alfabetizar, a Educar e a Transformar Angola».
O acto, realizado no Cine Ndalatando, foi presidido pelo governador provincial, João Diogo Gaspar, que destacou a importância da educação para o desenvolvimento das comunidades e do país.
Na ocasião, o governante reconheceu o papel dos professores e assegurou que o Governo Provincial continua empenhado na valorização da classe docente e na melhoria das respectivas condições de trabalho.
João Diogo Gaspar incentivou igualmente os alunos a dedicarem-se aos estudos e a preservarem as escolas, tendo desejado a toda a comunidade educativa um ano lectivo produtivo.
Por sua vez, o director provincial da Educação, Miguel Gola, revelou que, no ano lectivo anterior, mais de 150 mil alunos tiveram aproveitamento positivo, resultado que considerou satisfatório, tendo em conta o número de estudantes matriculados.
O responsável reiterou o compromisso do sector em continuar a trabalhar para proporcionar um ensino de maior qualidade.
Durante a cerimónia, os alunos também tiveram oportunidade de apresentar preocupações relacionadas com as condições de aprendizagem, apelando à continuidade dos esforços das instituições competentes para a melhoria das infra-estruturas e dos meios escolares.
Na mesma ocasião, três funcionários do sector da Educação foram homenageados pelo percurso profissional e pelo contributo prestado à educação na província. Entre os distinguidos estavam um antigo director municipal da Educação de Cazengo, um professor de Ambaca e uma auxiliar de limpeza do município da Banga. Como reconhecimento, receberam, respectivamente, uma televisão, um smartphone e um fogão.
Importa recordar que o ano lectivo 2026/2027 teve início oficialmente a 1 de Setembro, em toda a extensão da província, enquanto a cerimónia provincial de abertura foi realizada posteriormente, no Cine Ndalatando.
