Com o foco nas eleições gerais de 2027 em Angola, está na ordem do dia a formação de coligações partidárias, visando explicitamente alcançar a alternância política e retirar o MPLA do poder.

Criar coligações para derrotar o MPLA nas urnas, através do voto popular e tirá-lo do poder que detém há 50 anos, desde a Independência Nacional, é a estratégia da oposição.

A actual situação de carência, desemprego e miséria que se vive no país, ante a riqueza de alguns, principalmente dos que fizeram do país sua propriedade privada, tem sido motivo para que se queira uma alternância política.

Entende-se que depois de décadas de poder quase absoluto, de partido único, concentração política, desigualdades gritantes, corrupção, pobreza persistente, repressão, fragilidade institucional e eleições sistematicamente contestadas, é natural que muitos cidadãos desejem uma mudança real.

Mas uma Nação não pode construir o seu futuro apenas sobre aquilo que deseja remover.

O cidadão angolano tem de saber igualmente o que pretende edificar. Não basta desejar tirar o MPLA do poder, tem que pensar no que vira depois.

Será que quem vai substituir o MPLA tem princípios? Tem competência? Qual é o seu programa? Com que equipa vai governar? Com que limites?

Esse novo poder dá garantias de que não vai repetir os vícios do anterior?

A História ensina-nos uma lição exigente: mudar os rostos do poder não significa, por si só, mudar a cultura do poder.

Há povos que derrubaram regimes e acabaram apenas por substituir uma elite por outra.

Mudaram as bandeiras, os discursos, os nomes, os slogans, mas permaneceram a corrupção, o favoritismo, o abuso de autoridade, o nepotismo, a pobreza, a impunidade, a perseguição dos adversários e o culto da personalidade.

Porque não basta trocar quem ocupa o palácio, quando permanecem intactos os mecanismos que permitem ao palácio dominar o país.

Ninguém luta para mudar apenas o nome do senhor. Ninguém se sacrifica para que tudo continue igual ou se torne ainda pior.

O problema nunca é apenas quem governa. O problema é também como governa, com quem governa, para quem governa e perante quem responde.

Uma verdadeira democracia não vive da idolatria de partidos, da veneração de dirigentes nem da esperança depositada num suposto salvador da Pátria.

Vive de instituições fortes, de leis respeitadas, de tribunais independentes, de uma administração pública profissional, de forças armadas e policiais ao serviço da República, e não de um partido, de uma imprensa livre, de uma sociedade civil vigilante, de eleições credíveis, de alternância pacífica e de cidadãos conscientes, capazes de fiscalizar, questionar e responsabilizar quem exerce o poder.

Nenhum partido deveria ser suficientemente forte para se considerar dono do Estado.

Nenhum Presidente deveria colocar-se acima da Constituição.

Nenhuma família deveria apropriar-se das riquezas que pertencem ao povo.

Nenhuma oposição deveria desejar apenas ocupar o lugar do partido que critica, reproduzindo depois os mesmos métodos, os mesmos privilégios e a mesma arrogância.

Porque a oposição que apenas deseja herdar o poder, mas não reformar o Estado, não representa necessariamente uma alternativa.

Pode representar apenas a próxima versão do mesmo problema! Voltaremos! (Jap Kamoxi)