Ao que tudo indica, a FNLA poderá participar no congresso do próximo ano fragilizada, caso persistam as querelas internas entre a direcção do partido, liderada por Nimi-aSimbi, e uma suposta ala dirigida por Ngola Kabangu
Quando, em finais de 1998, Lucas Ngonda, antigo secretário para a Informação deste partido, rompeu com o seu líder Holden Roberto, criando uma ala reformista, foi acusado pelos seus companheiros de traidor e de ser um vendido ao Governo do então Presidente José Eduardo dos Santos.
A sua saída inesperada foi apontada como resultado de um plano urdido pelo Governo para enfraquecer a FNLA, que já se encontrava fragilizada.
Contudo, o tempo revelou que Ngonda não foi a causa do marasmo em que se encontra esta força política, mas a ambição desmedida de muitos dos seus membros, que sempre aspiraram liderar o partido.
Mesmo depois do congresso de reconciliação interna, realizado em Junho de 2019, que permitiu reunir a família FNLA e elegeu Nimi-a-Simbi como novo presidente do partido, em substituição de Lucas Ngonda, a crise de liderança persiste, tendo como protagonistas quadros seniores.
Ndonda Nzinga, Laiz Eduardo, Tristão Ernesto e Fernando Pedro Gomes, apoiados pelo veterano e histórico militante do partido, Ngola Kabangu, pretendem forçar a realização de um conclave extraordinário para destituir o actual presidente Nimi-a-Simbi do partido, contrariando o que estabelecem os estatutos.
As denúncias partem do próprio Nimi–a-Simbi, que tem acusado publicamente Ngola Kabangu de ser o promotor das querelas internas que, segundo ele, procuram manchar todo o trabalho realizado pelo seu elenco desde que assumiu a liderança.
Esse trabalho, segundo o presidente da FNLA, resume-se na reconciliação interna, revitalização, recrutamento e mobilização de mais quadros, sobretudo jovens, para o fortalecimento das fileiras deste antigo movimento de libertação nacional, com maior implantação na região Norte do país.
NÃO HÁ CRISE
A “guerra” sem quartel contra si e contra o seu elenco terá começado meses depois das eleições gerais de 2022, nas quais a FNLA conquistou dois deputados, ou seja, conservou os dois assentos parlamentares obtidos no pleito de 2017.
Segundo Nimi-a-Simbi, em entrevista recente à TV Zimbo, essa situação frustrou as expectativas de alguns militantes que Ngola Kabangu apoiaram o novo elenco.
Fazendo fé nas suas declarações, não existe uma crise de liderança, mas sim uma campanha direccionada contra si, supostamente liderada por Ngola Kabangu, que pretenderia regressar ao cadeirão máximo do partido.
Kabangu, por sua vez, rejeita essa intenção, afirmando que não pretende voltar a dirigir o partido, mas defende a escolha de um líder, preferencialmente jovem, capaz de conduzir a FNLA para um patamar mais elevado.
Justifica que, sem mudanças, o partido corre o risco de desaparecer nas eleições de 2027.
Kabangu alega que, política e fisicamente, Nimi-a-Simbi, que já foi seu vice-presidente, encontra-se limitado e deve deixar a liderança, mantendo-se como conselheiro.
O actual presidente, porém, entende que a tentativa de afastá-lo do cargo é um projecto que remonta a 2022.
QUINTA COLUNA?
Ndonda Nzinga, Laiz Eduardo, Tristão Ernesto e Fernando Pedro Gomes, sendo Laiz Eduardo os dois primeiros antigos secretários para a Informação e Propaganda do partido, que já serviram Lucas Ngonda, Ngola Kabangu e, mais recentemente, Nimi-a-Simbi, são apontados por alguns sectores internos como infiltrados no partido.
As acusações estendem-se a Tristão Ernesto e Fernando Pedro Gomes, antigo comissário nacional eleitoral junto da Comissão Nacional Eleitoral (CNE) e membro do Bureau Político, respectivamente.
As críticas ganharam maior intensidade nos últimos tempos, depois de estes terem declarado fidelidade a Kabangu, que defende a realização incondicional de um congresso.
Ainda sobre Ndonda e Laiz, alguns sectores consideram-nos militantes clientelistas, ou seja, apoiantes de alas internas em troca de benefícios financeiros e materiais. É o caso da ala de Kabangu, o “velho maquisard”, que, devido aos seus posicionamentos e discursos controversos, é interpretado como opositor declarado de Nimi-a-Simbi, apesar de justificar a sua posição como uma tentativa de “salvar a FNLA para não desaparecer”.
Ndonda Nzinga Jovete, o delfim Filho de um antigo comandante do ELNA, antigo braço armado da FNLA, e ex-secretário nacional da JFNLA, organização juvenil do partido, Jovete de Sousa é citado nos círculos internos como sendo o jovem que Ngola Kabangu e os seus pares poderão preparar para dirigir, no futuro, esta força política.
Formado em Relações Internacionais por uma universidade angolana e professor de profissão, “Irmão Jovete”, como é conhecido, foi antigo discípulo de Lucas Ngonda, mas há muito se afastou deste, juntando-se ao “Velho K”, ou simplesmente Ngola Kabangu.
Entre os jovens da sua geração política, reúne algum consenso e, nos últimos tempos, tem mantido uma aproximação a Kabangu, transformando-o num novo confidente, facto que alimenta rumores sobre o seu futuro, notíciou o Pungo a Ndongo.
