O jornalista angolano Reginaldo Silva, sobrevivente das detenções ocorridas após os acontecimentos de 27 de Maio de 1977 em Angola, contestou a narrativa segundo a qual a chegada de José Eduardo dos Santos ao poder, em Setembro de 1979, teria representado uma mudança profunda na situação dos presos políticos ligados ao alegado fraccionismo.

Num texto de reflexão sobre os acontecimentos de 27 e 28 de Maio, Reginaldo Silva afirma que as alterações no tratamento dado aos sobreviventes começaram ainda durante a liderança de Agostinho Neto, com o início do processo de libertação de detidos e a extinção da DISA.

Segundo o jornalista, ele próprio foi libertado em Fevereiro de 1979, meses antes da morte de Agostinho Neto, acrescentando que vários outros detidos permaneceram presos até quase ao final de 1980.

“JES não decretou nenhuma amnistia nem nada parecido”, escreveu Reginaldo Silva, contrariando versões que atribuem ao antigo Presidente medidas de reconciliação imediata após a sua ascensão ao poder.

O jornalista relata ainda que muitos sobreviventes das prisões políticas continuaram sujeitos, durante anos, a medidas administrativas restritivas, comparando-as aos métodos utilizados pela antiga PIDE/DGS no período colonial.

Entre essas medidas, destaca a proibição de trabalhar em Luanda e a imposição de residência noutras regiões do país, limitando a liberdade de circulação e os direitos cívicos dos antigos detidos.

Reginaldo Silva revelou igualmente ter tomado conhecimento recente da história de uma família alegadamente perseguida pela Segurança de Estado durante os anos 1980, por suspeitas de ligação a uma pessoa associada ao 27 de Maio que se encontrava foragida.

De acordo com o jornalista, a perseguição terá sido tão intensa que as autoridades obrigaram o proprietário da residência onde a família vivia a expulsá-la “da noite para o dia”.

Os acontecimentos de 27 de Maio de 1977 continuam a ser um dos episódios mais controversos da história contemporânea angolana, marcado por detenções, execuções e desaparecimentos em massa após uma alegada tentativa de golpe de Estado contra o então Governo do MPLA.