Muanamosi Matumona nasceu no Uíge, em 1965, e faleceu em Luanda, no dia 13 de abril de 2011. Foi um filósofo, teólogo, sacerdote católico, jornalista e professor angolano. Leccionou Sociologia, Filosofia Africana e História de África Contemporânea na Universidade Agostinho Neto e no Seminário Maior do Uíge.
Estudou Filosofia, Teologia, Sociologia e Comunicação Social em Lisboa, no Porto e em Roma. Era pós-graduado em Comunicação Social, doutor em Teologia Fundamental pela Universidade Católica Portuguesa e preparava um segundo doutoramento em Sociologia.
Na Universidade Agostinho Neto, cooperou com o ISCED do Uíge e, mais tarde, com a Faculdade de Ciências Sociais, em Luanda. Sacerdote ordenado em 1995, exerceu o seu ministério na Diocese do Uíge.
Membro do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, Matumona acumulava, à data da sua morte, as funções de Director-Geral da Rádio Ecclesia (Emissora Católica de Angola) e do jornal O Apostolado.
Iniciou a sua carreira jornalística em 1982, somando passagens pelo Jornal Desportivo Militar, Jornal de Angola, Jornal dos Desportos e pela agência de notícias ANGOP. Na emissora provincial do Uíge da Rádio Nacional de Angola, produziu e apresentou o programa Antena Luz. Como ele próprio afirmou em correspondência ao Club-K: «sou jornalista profissional desde 1982, quando era ainda muito jovem. Pelo que estou no Jornal de Angola há mais de 25 anos».
É autor de uma vasta produção filosófica, teológica e jornalística, destacando-se:
«Jornalismo Angolano: História, Desafios e Expectativas» (2002);
«A Reconstrução de África na Era da Modernidade – Ensaio de uma Epistemologia e Pedagogia da Filosofia Africana» (2004);
«Cristianismo e Mutações Sociais em África – Elementos para uma Teologia Africana da Reconstrução» (2005);
«Teologia Africana da Reconstrução como Novo Paradigma Epistemológico – Contributo Lusófono num Mundo em Mutação» (2008);
«Os Media na Era da Globalização – Para uma Sociologia do Jornalismo Angolano» (2009);
«Filosofia Africana na Linha do Tempo – Implicações Epistemológicas, Pedagógicas e Práticas de uma Ciência Moderna» (2010).
Matumona foi um fervoroso defensor da existência de uma filosofia genuinamente africana, contrariando a visão de diversos investigadores ocidentais e locais. Na sua obra ‹Filosofia Africana na Linha do Tempo›, definiu-a como a «interpretação das realidades africanas». Para o autor, a filosofia no continente deve reflectir sobre os problemas concretos dos povos e propor soluções focadas na reconstrução social e política.
Matumona propôs que a «Filosofia Africana da Reconstrução» fosse leccionada como disciplina autónoma no sistema de ensino, devolvendo aos africanos a consciência da sua dignidade e missão no século XXI. Defendia firmemente que «a África não pode ser condenada à morte» e que «a pressão do afropessimismo deve ser questionada ou até refutada com objectividade».
Como base para a legitimidade desta racionalidade, Matumona apontava a riqueza do universo cultural africano, estruturado logicamente:
«O negro-africano tem a sua visão própria sobre o mundo, o homem e Deus. Trata-se de um sistema real e eficaz, muito diferente da realidade ocidental, mas também antigo, que se vai actualizando consoante o evoluir do tempo».
Matumona valorizava a tradição oral como o património que molda a identidade e garante a sobrevivência do passado entre gerações, conferindo aos mais-velhos o papel de guardiões desta sabedoria:
«Numa sociedade em que a escrita se manteve durante muito tempo ao abandono, é normal dizer que em África, quando morre um velho, desaparece uma biblioteca. Pois a tradição oral é a biblioteca, o arquivo, o ritual, a enciclopédia, o tratado, o código, a ontologia poética e proverbial, as danças, os jogos, a música».
Contudo, esclarecia que a importância da oralidade não significava ausência de escrita. Matumona recordava que a África Negra conheceu sistemas de escrita desde meados do século XIX (como no Sudão, Gana e Mali) e que várias tribos usavam expressões gráficas com provável parentesco com os hieróglifos egípcios.
Para Matumona, a capacidade de transcrever as suas próprias línguas reflecte a profundidade do pensamento e da identidade africana: um povo com uma língua estruturada carrega em si a existência de uma filosofia muito anterior à colonização modernista. Concluiu questionando o «ocidentalismo» por ignorar que a África é o berço da humanidade e que sempre contou com intelectuais determinantes para o progresso universal.
O filósofo angolano Muanamosi Matumona faleceu às 20h do dia 13 de abril de 2011, no Hospital Militar de Luanda, onde se encontrava internado há alguns dias devido a complicações de hipertensão e insuficiência respiratória. A sua morte ocorreu apenas três semanas após ter assumido a Direcção-Geral da Rádio Ecclesia.
